Compartilhando Vivências, por Gelan Giequelin, mãe azul

Autora: Gelan Giequelin, mãe azul UniTEA

O Manuel foi esperado por alguns anos, porém antes dele sofri um aborto espontâneo. Achei que não conseguiria engravidar novamente, mas após alguns meses a notícia tão esperada veio. Sou hipertensa e ao completar 32 semanas de gestação, minha pressão começou a subir e, após 2 semanas entre idas e vindas a médicos e realização de alguns exames, no dia 23 de maio de 2009, nasceu o Manuel.

Foi um bebê prematuro, mas veio ao mundo pesando 2,150kg e medindo 48 centímetros. Por isso, náo precisou ficar hospitalizado. Aos 15 meses deu seus primeiros passos e balbuciava algumas palavras, como mamãe e papai.  Apesar disso, as visitas aos médicos foram, inicialmente, por causa de um atraso na fala.  Entretanto, a explicação era sempre a mesma: foi prematuro e vai demorar um pouco mais a falar.

E, assim, se foram dois anos entre pediatra, fonoaudióloga, neuropediatra e tantos outros. Fizemos tomografias, eletros, ressonância e nada era constatado. Com pouco mais de 2 anos, o Manuel foi para a escolinha, onde quase não interagia com as outras crianças. Porém, ele gostava das aulas de música e seguia o professor por todas as salas de aula. Era uma criança irritada, mas eu, na minha ingenuidade, achava que o Manuel era apenas manhoso, já que fazíamos tudo por ele.

Um dia ele saiu com o pai, foram a uma loja de uma conhecida nossa. Ela tinha um sobrinho e comentou que ele era igual ao Manuel. E que esse sobrinho era autista. Quando meu ex marido chegou em casa e me contou o que ela havia dito, nossa! Foi horrível!

Então, eu disse a ele que meu filho não era autista coisa nenhuma, pois, para mim, autistas eram apenas aquelas crianças com estereotipias mais acentuadas e um maior déficit cognitivo. E o Manuel, não tinha sintomas tão acentuados.

Até que, em fevereiro de 2013, na escolinha, ele teve seu primeiro surto e arranhado toda a professora. Com muita paciência a dona da escolinha me chamou e pediu para consultarmos algum especialista. Assim, fomos novamente ao neuropediatra e comentamos com ele tudo o que havia acontecido com nosso filho. Ele nos receitou uma medicação e nos deu um pré diagnóstico de Transtorno Global do Desenvolvimento (TGD), que hoje faz parte do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Também pediu para retornarmos em um mês com um relatório completo sobre o comportamento do Manuel no ambiente escolar.

Durante todo aquele mês nosso caçula foi sendo avaliado na escolinha pela psicóloga, que lá trabalhava duas vezes por semana. Fez novos exames e voltamos ao neuropediatra como o combinado. Ele nos perguntou se o Manuel estava mais tranquilo com a medicação, o que realmente estava, e nos solicitou mais 3 meses para estudar o relatório. Ao chegar em casa novamente, assisti a um capítulo de uma novela na qual havia uma moça que era autista. A partir dali, cada vez que a via lembrava do meu filho.

Chorava e pensava para mim mesma: será que meu filho é realmente autista?

Pouco tempo depois, no Fantástico iniciou uma série de reportagens sobre autismo. Então, comecei a perceber diversos sintomas dos entrevistados no Manuel. Ao final dessa série disponibilizaram um questionário para tirar dúvidas e resolvi preencher. Para minha surpresa, a resposta à maioria das perguntas era sim. Recebi por e-mail a resposta: procure um profissional capacitado para seu filho, o SUS está com excelentes profissionais.

Ainda assim, eu não queria acreditar, mas fui ao posto de saúde e conversei com a técnica de enfermagem e com a enfermeira chefe, que me encaminhou à pediatra com urgência. Esta me encaminhou a outro neuropediatra e, 20 dias depois, entrei no consultório dele e, após todas as explicações de praxe, ele me disse: mãe, nem sempre o que vemos na TV ou internet é o certo, mas não se angustie. Vou examiná-lo.

Após o exame, ele sentou de frente para mim e disse: mãe, sinto muito em lhe dizer, mas seu filho realmente tem Autismo. Leve, mas tem.

Você nunca percebeu que ele não fixa os olhos em quem está falando com ele? Não escutei mais nada, só queria sair daquele lugar e ir para casa. Só lembro que deveríamos retornar em dois meses e continuarmos com a medicação. Chorei muito ao chegar em casa. Meu filho é autista, o que faço agora? Pensava nos familiares que sempre diziam: o Manuel deve ter algo, pois não fala. Mas, quando contei o que ele tinha, ninguém acreditava. Nem na própria escolinha sabiam como lidar com esse diagnóstico.

Enfim, tive que levantar a cabeça, arregaçar as mangas e começar a pesquisar tudo o que podia sobre o Autismo.  Uma semana depois, levei na pediatra do plano o atestado que o neuropediatra havia me dado, ao que ela me mostrou o prontuário com o mesmo diagnóstico, que outro neuropediatra do plano já havia lhe encaminhado há uns dez dias.

Finalmente a verdade! O Manuel já estava com 4 anos e 6 meses e a corrida contra o tempo começou. Hoje, aos 8 anos e 10 meses, meu amado filho é considerado um autista moderado, faz diversas atividades e vai à escola regular.

Edição e revisão: Raquel Ely, Co-Fundadora UniTEA